UA convidada a abordar violências sexuais na RD Congo

Banjul- Gâmbia (PANA) -- A presidente do ponto focal das organizações das mulheres da RD Congo em Nova Iorque (Estados Unidos), Aningina Tshefu Bibiane, instou segunda-feira a União Africana a abordar as violências sexuais sofridas pelas mulheres no seu país.
Em entrevista à PANA em Banjul à margem das actividades em prelúdio da sétima cimeira dos chefes de Estado e de governo da UA prevista para 1 e 2 de Julho próximo na capital gambiana, Tshefu indicou que "o maior problema das mulheres congolesas é a violência sexual quotidiana".
"Estas mulheres continuam a sofrer violações individuais ou colectivas perpetradas por grupos armados e por funcionários das instituições internacionais encarregues de proteger as populações nas zonas de conflitos", denunciou, acrescentando ser "paradoxal e lamentável" que estes funcionários supostos trazer a paz e socorrer as vítimas sejam os bárbaros destas mulheres já enfraquecidas por tantos anos de guerra e atrocidades.
De acordo com Tshefu, a paz na RD Congo apenas é superficial visto que estas atrocidades continuam a ser frequentes em Kivu, em Ituri e em Katanga (leste) onde, diariamente, mulheres e raparigas de dois anos são violadas impunemente.
Diversas reuniões são organizadas pelas instituições africanas, incluindo a União Africana, mas nenhuma se interessou pelo que vivem estas mulheres que não têm direito à justiça, deplorou, interrogando- se se a UA espera que elas peguem em armas antes de as ouvir.
Apenas na cimeira de Banjul, decorrem três encontros sobre os problemas das mulheres.
Todos eles abordam quase os mesmos temas, mas nenhum fala especificamente do caso das congolesas que corre o risco de não figurar em nenhuma resolução, lamentou Aningina Tshefu.
"É tempo de os africanos discutirem esta crueldade diária e escutar o grito de aflição destas mulheres se não quiserem ser cúmplices passivos de um crime contra a camada feminina", afirmou Tshefu, que se diz muito determinada a fazer escutar a voz destas inocentes abandonadas por todos.
A situação da mulher congolesa é crítica, ninguém fala disso em África ou porque se recusa a enfrentar a realidade ou porque se considera que estas criaturas não têm direito à justiça, frisou Tshefu, apelando à solidariedade das outras africanas para uma mobilização com vista a salvar as milhares de mulheres que sofrem da atrocidade dos homens e do silêncio e impunidade encorajados pelos seus líderes.
No Congo, as mulheres já não vivem, são destruídas quotidianamente pelas violências que duram há mais de 10 anos e cujas consequências têm como nomes as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), a sida, as gravidezes precoces, os abortos provocados e as crianças indesejadas e abandonadas, a miséria ambiental e enormes problemas psicológicos, prosseguiu.
"Neste país, a violação torna-se uma arma sistemática de guerra e os autores deste crime exortam às vezes aos pais a violar as suas filhas e os irmãos as suas irmãs sem se preocupar com os que fazem discursos bonitos sobre os direitos das mulheres", denunciou Tshefu.
As violências sexuais na RD Congo representam um abcesso que a UA deve arrancar hoje mesmo, se não quiser fazer face a situações que não pode gerir.
Este flagelo que destrói as raparigas, as mulheres, as famílias, e fragiliza a sociedade corre o risco de se propagar em outros países se nada não for feito para o parar, avisou Aningina Tshefu, que tenciona romper a segurança para dizer de viva voz aos chefes de Estado o drama das mulheres congolesas.
Tshefu, que vive em Nova Iorque há vários anos, fustiga finalmente "a passividade" dos líderes da RD Congo que, diz, "dormem nos seus louros numa altura em que as mulheres do seu país, traumatizadas, gritam a sua aflição sem que ninguém as venha socorrer".

27 Junho 2006 09:54:00




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