Tensões políticas na agenda da cimeira da Francofonia

Ouagadougou- Burkina Faso (PANA) -- Com pelo menos 15 países em situação de conflito ou pós-conflito, o espaço francófono, que congrega no seu seio os países menos avançados do planeta, corre o risco, uma vez mais, de consagrar o essencial das discussões da sua X cimeira às tensões sócio-políticas que o assolam em detrimento de verdadeiros planos e programas de desenvolvimento sustentável.
O conflito armado que conhece a Côte d'Ivoire desde a 19 de Setembro de 2002 é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos chefes de Estado e de governo dos países que têm em comum o francês como língua oficial.
O Presidente Laurent Gbagbo, cuja vinda a Ouagadougou está longe de ser um dado adquirido, conseguiu atrair a atenção do Comité Permanente da Francofonia e da 21ª sessão ministerial.
Com efeito, uma resolução tomada pelas duas instâncias apela os chefes de Estado a envolver as diferentes partes na aplicação dos acordos de Linas-Marcoussis.
Dos países dos Grandes Lagos, dos quais vários estão em transição democrática, a chegada do general Paul Kagamé e do seu grande vizinho congolês Joseph Kabila suscita debates nalguns meios diplamáticos, onde muitos esperam que a Francofonia venha a implicar-se mais para ajudar a região a sair de uma decada de turbulências.
Por outro lado, as eleições na República Centro-africana preocupam a Francofonia bem como as programadas no Haiti.
Alguns diplomatas saúdam ainda a decisão do primeiro-ministro haitiano, Jean Latortue, de não se candidatar às eleições presidenciais na Ilha.
O grande debate que animará a cimeira de Ouagadougou é sem dúvida alguma a crise em Darfur, no oeste do Sudão.
Embora não sendo membro da Francofonia, o Sudão preocupa os líderes do espaço francófono que desejam contribuir para o regresso da paz e da estabilidade a um país confrontado, há quase um quarto de século, no oeste, com uma guerra étnico-religiosa e, no sul, com um conflito armado que causou cerca de 800 mil refugiados.
O Presidente sudanês Omar El-Béchir e o presidente em exercício da União Africana, Olusegun Obasanjo, presentes na cimeira de Ouagadougou, tencionam balencear a situação.
Por esta ocasião, o Presidente da Comissão da União Africana, Alpha Oumar Konaré, deverá apelar para a solidariedade francófona para tirar o continente do impasse.
Numa declaração feita terça-feira ao Conselho Permanente da Francofonia, a Guiné Equatorial exortava a organização francófona a tomar uma resolução "clara e nítida" para condenar a mercenarismo em conformidade com a Declaração de Bamako.
Considerando-se vítima de uma tentativa de golpe de Estado, Malabo apelou os países do espaço francófono a discutir a fundo a carta de solidariedade, condenando os países que "acolhem, formam ou caucionam os mercenários" Quanto à Mauritânia, o seu embaixador em Paris, Sid'El Ould Nagi, declarou que o seu país não participaria a nível estatal na cimeira de Ouagadougou enquanto as autoridades burkinabes não reconhecessem a sua implicação e não deixassem de dar o seu apoio a opositores com vista a desestabilizar as instituições da República.
Não obstante as esperanças que manifestam as autoridades burkinabes para que Ouagadougou seja o ponto de partida de uma Francofonia centrada nas questões de desenvolvimento, a busca da estabilidade sócio-política não deixa de assombrar o espírito dos países membros e influenciar a agenda da cimeira dos países francófonos.

26 Novembro 2004 21:17:00




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