Secessão do Sul-Sudão é pouco preocupante se bombas retardadas forem desarmadas, diz chefe rebelde tchadiano

Paris, França (PANA) – A secessão no termo de um voto positivo durante o referendo de domingo 9 de Janeiro de 2011 no Sudão, pode ser pouco preocupante para este país, se os dirigentes conseguirem desamar "as bombas retardadas", declarou sábado à PANA em Paris um chefe rebelde tchadiano, Acheikh Ibni Oumar.

"Depois de cinquenta anos de guerra, a secessão parece ser pouco preocupante. No entanto, creio que uma separação bem organizada, num clima apaziguado, pode trazer a paz à região e permitir a reformulação de uma nova forma de colaboração entre as duas entidades, pois, objetivamente, os dois futuros Estados não serão viáveis, se estiverem de costas viradas", afirmou o ex-embaixador tchadinao nos Estados Unidos e Alto Repsentante junto das Nações Unidas (de 1992 a 1993) .

Ele aludia ao referendo previsto pelo acordo de paz concluído em 2005 após mais de 20 anos de guerra civil entre o regime de Cartum e os rebeldes do sul do país, maioritariamente cristãos, e que vai permitir, domingo, 8 de Janeiro 2011, aos Sul-Sudaneses escolherem, durante  o voto a decorrer até a 15 de Janeiro,  entre a manutenção da unidade com o Sudão ou a secessão..

"Historicamente, desde o Closed District Ordinance Act  (Lei de Distrito Reservado) de 1920 da administração colonial britânica que impunha uma fronteira administrativa. económica e social entre o Norte e o Sul, o Sudão nunca viveu como um Estado unificado. O erro dos regimes sucessivos do Governo central consistiu em crer que a unidade devia ser preservada a final de conta ela devia ser criada",  sublinhou..

Ibni Oumar considerou também que o referendo foi organizado com uma certa pressa, o que, a seu ver, deixou questões pendentes,  nomeadamente  a delimitação da fronteira Norte-Sul, o direito de voto para os naturais do Sul residentes no Norte.

A este leque, o ex-conselheiro do atual Presidente do Tchad, Idriss Déby Itno (de 1990 a 1991) acrescentou o rumo das comunidades intermediárias, a repartição dos recursos e, sobretudo, a dívida e a repreensão dos  contraditores dos dois partidos dominantes no sul e  norte do país, suscetíveis, a seu ver,  de ser verdadeiras bombas retardadas..

Ele evocou por outro lado uma nova balcanização de África, se, um dia, outras comunidades africanas quiserem seguir o exemplo
do Sul-Sudão, aludindo assim às situações de Katanga (extremo sudeste da República Democrática do Congo, de Biafra (Nigéria), de  Ogaden  (Etiópia), dos Camarões anglófonos, de Cabinda (Angola) e de Casamança (Senegal) .

"Mas, a situação atual contém uma novidade radical. Trata-se de uma partida de póquer mentiroso entre Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), o Banco Popular da China (BOC) e companhias petroleiras dos dois países. Mas, neste póquer, as cartas chamam-se notas de tesouro, barreiras tarifárias, polémicas monetárias, etc. Mas, em África, as cartas deste jogo chamam-se massacres étinicos, violações sexuais em massa e guerras pós-eleitorais que culminam na pilhagem de recursos naturais", lamentou o também ex-ministro  tchadiano  dos Negócios Estrangeiros (de 1989 a 1990).

Ibni Oumar frisou que as fronteiras dos interesses económicos das grandes potências estão em conflito com as fronteiras jurídicas, daí, disse, a tentação de ajustes sangrentos.

Portanto, acrescentou, cabe às elites africanas, aos governos e às oposições tomar consciência do perigo,  transcender as ambições de se agarrar ao poder e de ganhar dinheiro fácil, a fim de ultrapassar estes grandes desafios.

Acheikh  Ibni Oumar, ex-conselheiro especial do Presidente Idriss Deby Itno entre 1990 e 1991, logo depois de este último ter destronado o então Presidente Hissene Habré, rompeu em 1993, com ele, para se juntar à rebelião armada.

-0- PANA BM/JSG/DD  08jan2011

08 Janeiro 2011 14:42:55




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