Negociações de Abuja, última oportunidade para paz em Darfur

Addis Abeba- Etiópia (PANA) -- A retomada das negociações de paz em Darfur (oeste sudanês), neste fim-de-semana em Abuja, na Nigéria, poderá marcar o regresso da serenidade a esta conturbada região.
Para os habitantes pobres, traumatizados e aflitos de Darfur e em nome dos quais cada negociador vai pretender falar, a retomada das negociações não se deve transformar numa das infínitas conversas entrecortadas com suspensões de sessões desnecessárias.
É conveniente priorizar a paz e a reconciliação.
Todas as partes opostas presentes nas negociações desejam acabar com este conflito de dois anos que fez cerca de 200 mil mortos e dois milhões de deslocados.
Assim que as negociações de paz arrancarem no conforto de salas climatizadas, a tarefa dos "Capacetes verdes" da Missão da União Africana no Sudão (AMIS) de garantir a segurança em Darfur obriga-os a manterem-se vigilantes debaixo de fortes temperaturas que se fazem sentir na região.
Visto que as milícias Djandjawids (pro-governementais), acusadas de ser os principais autores das violências cometidas em Darfur, com a cumplicidade do governo, e que numerosos grupos de auto-defesa continuam fortemente armados, o restauro da paz e da segurança neste território, comparável com a França, vai certamente testar as capacidades da missão da UA.
"Todas as armas de infantaria imagináveis estão em Darfur", afirmou à PANA um oficial superior da AMIS, postado no sector de Nyala, no Sul de Darfur.
Nos círculos dos serviços de segurança, estima-se que cada adulto, para além de crianças soldados incontroláveis, possui pelo menos uma arma, disse.
Segundo um funcionário do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), constatou-se que as crianças estão a ser pouco "usadas" pelas tropas governamentais, mas não a nível da Polícia.
De acordo com a avaliação preliminar da situação pelo organismo onusino encarregue da protecção das crianças, a situação "continua a ser extraordinariamente grave".
Por enquanto, não existe nenhuma primeira linha que possa permitir às tropas da AMIS interporem-se para proteger as comunidades locais e, consequentemente, lutar contra a insegurança.
Se o desfecho do encontro de Abuja for bom, a paisagem deverá mudar com o reforço da AMIS nos próximos três meses.
"Às vezes, não temos garantias suficientes no tocante à segurança para permitir às pessoas deslocadas regressar as suas casas", reconheceu Ajumbo, comandante em chefe do Sector II no Sul Darfur.
A insegurança é exacerbada não só pela proliferação de armas na região de Darfur mas igualmente pelas violações do Acordo do Cessar-Fogo Humanitário assinado pelas partes em conflito a 8 de Abril de 2004 no Tchad vizinho.
Além disso, os constantes roubos de gado e as reacções dos proprietários desejosos de reencontrar as suas bestas roubadas provocam confrontos que se repercutem nas condições de segurança em geral.
"É a este nível que interviemos para favorecer negociações e permitir finalmente o regresso de animais roubados", explicou Ajumbo.
Os responsáveis da AMIS, nomeadamente da Policia Militar e Civil, encontram-se às vezes numa situação que os obriga a encorajarem o diálogo entre comunidades rivais.
Trata-se de casos em que alguns chefes de tribos e seus clãs dizem categoricamente que o acordo de cessar-fogo não lhes diz respeito e, por conseguinte, não são obrigados a respeitar as suas disposições.
"Se devia traduzir em palavras o que vivemos no domínio da segurança, diria que é espantoso", disse Ford Robinson da ONG "Save the Children/UK".
Esta ONG decidiu a 16 de Dezembro de 2004 abandonar Darfur por razões de segurança.
De acordo com ele, várias ONG que operam em Darfur para salvar vidas não têm as capacidades necessárias em termos de segurança para bem controlar a situação no local.
Que sejamos trabalhadores humanitários ou membros do pessoal de segurança encarregue de proteger os civis nesta região turbulenta, a segurança é um factor comum que deverá contribuir para tecer laços entre eles.
Devido à insegurança, as pessoas deslocadas hesitam em regressar às suas casas.
Actos de banditismo e ataques esporádicos perpetrados pelos árabes do Norte, procurando pastos para apascentar os seus camelos, fazem dos campos de refugiados as únicas zonas de refúgio.
Apesar de a crise em Darfur representar para a UA e a comunidade internacional um desafio particular, ela constitui uma experiência rica para todos os actores envolvido na busca duma solução comum e oferece a oportunidade para se construir uma parceria forte para o futuro.

08 Junho 2005 22:30:00




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