Lingua kiswahili entra na União Africana

Addis Abeba- Etiópia (PANA) -- O kiswahili, uma das primeiras línguas africanas pelo número de utentes principalmente concentrados nas costas orientais do continente, uma parte da África central e nas ilhas do Oceano Índico, entrou desde terça-feira nas deliberações da União Africana (UA).
O presidente em exercício cessante da organização panafricana, o moçambicano Joaquim Chissano, que leu mais de dois terços do seu discurso balanço e despedida de cerca de uma hora em kiswahili, ficará na história da UA como uma das primeiras entidades desta organização a ter feito largamente uso de uma língua africana numa cimeira continental.
Língua bantu com uma ligeira influência árabe, o kiswahili é correntemente falado entre outros países, na Somália, Quénia, Uganda, Tanzânia, Ruanda, Burundi, Malawi, Moçambique, Comores e no leste da RD Congo.
Embora os primeiros documentos escritos em kiswahili não saiam ainda dos serviços de tradução e de reprodução da UA, esta iniciativa alegremente apresentada pelo seu autor "como uma provocação" foi imediatamente ampliada pelo Presidente queniano, Mwai Kibaki, nas suas intervenções no debate geral da III Cimeira da UA.
A entrada do kiswahili na UA nunca surpreendeu contudo os observadores que seguiram a evolução da questão da introdução das línguas africanas nas deliberações da organização panafricana.
A porta, deixada entreaberta pela Carta Constitutiva da Organização de Unidade Africana (OUA), foi alargada claramente pelo artigo 25 do Acto Constitutivo da União Africana.
Esta disposição indica que "as línguas de trabalho da União e de todas as suas instituições são, se possível, as línguas africanas, bem como o árabe, inglês, francês e o português".
Este "se possível" em relação às disposições da Carta da OUA que a UA veio aprofundar "com a condição de garantir a tradução" foi feito terça-feira apesar de alguns momentos de hesitação que não puderam dissipar a aparente satisfacção de um auditório que aplaudiu a ideia.
Inicialmente com uma adesão sub-regional a nível da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), a iniciativa que acaba de perenizar Chissano que deu o primeiro passo, há um ano, na Cimeira de Maputo (Moçambique), quando reconheceu formalmente o kiswahili como uma das línguas de trabalho da União.
Recorde-se que outras grandes línguas africanas tais como o haoussa, manding, lingala e peul poderão, sob reserva garantir apenas uma tradução simultânea nas outras línguas de trabalho utilizada na UA, fazer igualmente a sua entrada nas deliberações africanas.
Seria então partes inteiras "da cultura e dos valores cardinais que veicula qualquer língua de uma sociedade dada", que se encontrariam reabilitados ao nível africano mais elevado, frisou terça-feira o Presidente Chissano.

07 Julho 2004 14:49:00




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