Líder líbio apela a África para sair do ciclo de fiascos

Sirtes- Líbia (PANA) -- O guia líbio Muamar Kadafi apelou segunda-feira em Sirtes aos países africanos para sair do ciclo de fiascos em que estava mergulhada a ex-Organização de Unidade Africana (OUA) e que a sua sucessora União Africana (UA) poderá fazer face.
Intervindo na abertura da quinta cimeira ordinária dos chefes de Estado e de governo da UA, o líder líbio convidou os dirigentes africanos a privilegiar as competências na atribuição dos postos a nível das instituições desta organização continental.
Revelou igualmente que o actual Presidente em exercício da União Africana tem apenas uma posição honorífica sem nenhuma prerrogativa jurídica e, portanto, incapaz de tomar qualquer decisão que vincule todos os países africanos.
Segundo Kadafi, o mesmo acontece com os presidentes da Comissão da União Africana, do Conselho Executivo da UA e de outras instituições da organização panafricana.
O coronel Kadafi interrogou-se, por outro lado, sobre a falta de ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa à escala continental ao passo que, ressaltou, os países estrangeiros nomeiam adjuntos dos seus ministros dos Negócios Estrangeiros ou da Defesa encarregues dos Assuntos Africanos.
Para o guia líbio, o Conselho Executivo da UA, que não dispõe de nenhuma competência, nem de uma política externa unificada para com o mundo não pode consequentemente ser um Conselho Executivo da política estrangeira de África.
"Procedeu-se à nomeação de comissários que até ao momento ainda não desempenharam nenhum papel.
Temos, por exemplo, um comissário para a Defesa que não vimos no terreno em Darfur (oeste sudanês) ou na fronteira entre a Eritreia e a Etiópia, nem na Serra Leoa, nem na Libéria, nem na Côte d'Ivoire e muito menos nos Grandes Lagos que são zonas de conflitos e que necessitam em primeiro lugar da sua presença", lamentou.
O Presidente Kadafi interrogou-se ainda sobre as responsabilidades no seio da UA relativas à construção das infra-estruturas tais como estradas, caminhos-de-ferro, transporte aéreo e comunicações, assim como o satélite africano, que são instituições que interessam a todos os países africanos.
O guia líbio denunciou os "álibis" avançados por alguns para que não se toque na sua soberania nacional, sustentando que são "pretextos fúteis e sem fundamento".
"Como podemos aceitar perder a nossa soberania no exterior e não aceitarmos perdê-la a favor da União Africana", interrogou-se, o coronel Kadafi, frisando que "a construção das instituições da UA não está em contradição com a soberania nacional que diz respeito a cada país".
Segundo ele, o que importa na UA é a unificação dos instrumentos comuns para todos os países africanos tais como a gestão de estradas e de redes ferroviárias e a unificação das telecomunicações em África.
Relativamente aos apelos para a ajuda a África, o guia Kadafi ressaltou que são como uma "faca de dois gumes : clemência pela aparência e sofrimento no fundo".
Ao sublinhar que os países africanos são submetidos a "condições humiliantes" para obter esta ajuda, o Presidente líbio apelou-lhes para a rejeitar porque, disse, "são os outros que precisam de África que tem riquezas enormes".
"África dispõe de 50 por cento das reservas mundiais de ouro, 25 por cento das de urânio, 95 por cento das dos diamantes, de um terço das reservas mundiais de crómio e de cobalto, de 65 por cento do cacau, para além de 25 mil quilómetros de rios", disse.
Segundo o líder líbio, África não pode construir o seu futuro "mendigando às portas dos grandes países industrializados".
Lamentou que as dívidas que se acumularam não sirvam para projectos de desenvolvimento em África.
Relativamente ao HIV/Sida, o coronel Kadafi lamentou as tentativas visando "aterrorizar" África com este flagelo, sublinhando que a pandemia foi explorada por sociedades ocidentais para "fins de negócio".
"As pessoas não morrem todos os dias unicamente por causa da sida mas também por causa do cancro, da doença da vaca louca", ironizou o líder líbio, aludindo às doenças frequentemente encontradas no Ocidente.
Falando da economia africana, Kadafi afirmou a necessidade de valorizar as componentes da economia do continente, nomeadamente a água, o gás e o petróleo, e elaborar um estudo sobre a implementação desta integração.
Para o efeito, sugeriu a criação de uma bolsa financeira africana de valores e a supressão de todos os obstáculos às trocas comerciais interafricanas.
"A maior parte dos fundos africanos emigra para o estrangeiro devido à incapacidade dos mercados locais de os aproveitar", lamentou.
Quanto à reforma das Nações Unidas, o líder líbio estima que as Nações Unidas vão continuar a ser uma "simples decoração" enquanto as suas competências não forem transferidas para a Assembleia Geral que constitui o Parlamento do mundo.
"A tentativa de alargamento do Conselho de Segurança não significa reforma nenhuma porque, se o alargamento do Conselho de Segurança significa reforma, é preciso consequentemente suprimir a Assembleia Geral para economizar as despesas supérfluas", concluiu o coronel Kadafi.

04 Julho 2005 22:20:00




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