Golpe de Estado na Guiné-Bissau faz manchete em Dakar

Dakar- Senegal (PANA) -- O golpe de Estado ocorrido a 14 de Setembro na Guiné-Bissau e a inauguração quarta-feira, no Senegal, de uma fabrica de montagem de autocarros, foram os principais temas em destaque na imprensa senegalesa.
Segundo o Sud Quotidien, o golpe de Estado que afastou do poder o presidente Koumba Yalá, consagra o desaire de um regime que concentrou os seus esforços mais no açambarcamento das instituições do Estado, na submissão do aparelho judiciário, no amordaçamento da imprensa, no empobrecimento dos funcionários e na intimidação da oposição do que na execução de um verdadeiro programa de desenvolvimento.
"Curiosa maneira de proceder de um regime que entretanto chegou ao poder por vias democráticas saudadas por unanimidade pela comunidade internacional", escreve o jornal.
"Koumba Yalá não foi feito para dirigir um país.
É sem sombra de dúvidas um brilhante orador, um arengador de multidões, mas em nenhum caso um homem de Estado.
Muito menos um gestor", estima o semanário Le Témoin, sublinhando que o presidente deposto "tinha acabado rapidamente" por aborrecer os seus vizinhos.
Evocando o acordo obtido quinta-feira pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) com os golpistas que vão devolver o poder aos civis no final de um período de transição de dois anos, o diário L'Info 7 estima que a organização sub- regional acaba assim de "coroar" o golpe de Estado que derrubou o regime de Koumba Yalá.
"A CEDEAO, que nestes últimos anos, condena irrevogavelmente os golpes de Estado, fez simplesmente uma viragem de 180 graus para legitimar a intentona de domingo na Guiné Bissau", escreve o jornal.
"Koumba Yalá deposto, foram os presidentes John Kufuor do Gana, igualmente presidente em exercício da CEDEAO, Abdoulaye Wade do Senegal, e Olusegun Obasanjo da Nigéria que se deslocaram a Bissau para saudar Veríssimo Seabra Correa, o mentor do golpe de Estado", acrescenta o L'Info 7.
Apoiando a mesma opinião, o Sud Quotidien estima que as diligências dos chefes de Estado da CEDEAO podem ter consequências graves e fragilizar a decisão tomada em Julho de 1999, em Argel (Argélia), pela Organização da Unidade Africana (OUA), transformada em União Africana em 2001, de nunca mais reconhecer e aceitar no seu seio os regimes saídos de golpes de Estado.
"Esperava-se que (os chefes de Estado da CEDEAO) fossem ajudar no sentido de reabilitar Koumba Yalá nas suas funções, ainda que isto custasse caro à Guiné-Bissau", sublinha o jornal.
No respeitante à inauguração da fábrica de montangem de veículos, designada por Senbus Industries, em Thiès (70 km a nordeste de Dakar, o diário Le Soleil recorda tratar-se da realização de um sonho do presidente Wade que remonta a mais de uma década.
O jornal que fez um grande artigo sobre este evento, ressaltou a dimensão sub-regional da cerimónia que se desenrolou na presença dos chefes de Estado Blaise Compaoré do Burkina Faso, Omar Hassan El-Béchir do Sudão, Maaouya Ould Sid'Ahmed Taya da Mauritânia, Pedro Pires de Cabo Verde.
Também estiveram presentes neste evento o primeiro-ministro togolês e o ministro maliano dos Transportes.
"Cinco chefes de Estado na inauguração de Senbus: os autocarros da integração africana a caminho" foi a manchete do Le Soleil que salienta que a sua presença demostra que "o presidente Wade é a locomotiva que busca uma dinâmica de desenvolvimento de que o Senegal e toda a África vão tirar proveito".
O jornal Le Quotidien silenciou o aspecto internacional da cerimónia, indicando que "a produção dos primeiros autocarros" aconteceu num "clima da integração e da cooperação sul-sul".

19 Setembro 2003 21:09:00


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