Crise alimentar acentua prostituição no Níger

Niamey- Níger (PANA) -- A crise alimentar no Níger descambou em Niamey, capital do país, num novo tipo de prostituição de raparigas e de jovens mulheres à busca de meios financeiros para satisfazer as suas necessidades pessoais e as das suas famílias, constatou a PANA no local.
Vindas de aleias circundantes de Niamey e movidas pela fome, estas mulheres fazem de dia trabalhos domésticos mas, de noite, dedicam-se ao "comércio do sexo".
Vestida de calça collants e duma camisola que ressaltam os seus encantos femininos, Hajara, 16 anos, estava de pé há uma hora numa esquina, mastigando uma pastilha e "convidando" homens com um gesto de boca ou dizendo-lhes com gentileza "boa noite senhor".
"Hoje não sei porquê mas os clientes não aparecem.
Desde que estou aqui, nenhum homem me ligou.
Entretanto, penso que fiz boa maquilhagem e estou bem vestida, não acha ? Ontém, trabalhei e consegui cinco mil F CFA (cerca de 10 dólares)", disse Hajara à PANA com uma certa inquietude e decepção.
"Não é com a alegria que me prostituo.
A tradição, o Islão e mesmo o bom senso proibem uma mulher de vender o seu corpo.
Hoje, sinto-me humiliada na minha pele e na minha dignidade", queixou-se.
Mas acrescentou não haver outra alternativa.
"é preciso fazê-lo para achar algo para comer.
Deixámos a nossa aldeia, eu e a minha família sem recursos.
Tingamos duas vacas, três carneiros e cinco cabras que acabaram por morrer de fome", queixou-se.
"Senhor, estou aqui ! Não sou muito exigente.
Não se vai arrepender de mim", disse uma outra rapariga de saia curta ao jornalista da PANA.
"Sou empregada de limpeza na residência dum casal expatriado que me paga 20 mil FCFA (cerca de 40 dólares americanos) por mês.
Eles dão- me de comer mas o meu vencimento é muito pouco para satisfazer as minhas necessidades e as da minha família", deu a conhecer.
Quanto ao risco da sida, ela disse se preocupar em primeiro lugar com a sua saúde e não aceitar "dormir com homens sem preservativo".
As duas raparigas vieram da periferia de Niamey onde foram reassentadas há alguns meses famílias que fugiram das suas aldeias por causa da fome.
Intervindo a favor destas prostitutas, Hamadou Hassan, 70 anos, que reside na mesma área, disse que "não as critiquem porque face à fome, é extremamente difícil preservar a dignidade".
"Quando a mesma tragédia aconteceu em 1974 e 1984, assistimos ao mesmo comportamento das mulheres nas cidades do país.
A prostituição vai diminuir a medida que a fome vai desaparecendo", concluiu.

09 Setembro 2005 22:15:00


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