Dakar- Senegal (PANA) -- Para os países oeste-africanos cujas economias dependem quase totalmente da produção de algodão, o apelo lançado quinta-feira pelo administrador do PNUD, Mark Malloch Brown, para que os países do G-8 suprimam as barreiras comerciais injustas no mercado mundial, não podia ser o mais oportuno.
Ao passo que os países ricos se reúnem domingo, segunda e terça-feiras em Eviam (França) para revisarem as estratégias comuns que devem lhes permitir enriquecerem-se cada vez mais, cerca de 800 milhões de indivíduos no mundo, vão continuar a sofrer do terror da fome crónica.
A sorte de milhões de oeste-africanos que vivem da cultura do algodão necessita de um pouco mais do que uma simples vontade política da parte destes oito países mais industrializados do planeta.
Um relatório do Banco Mundial e do Comité Consultivo Internacional sobre o Algodão (ICAC) intitulado "Produção e políticas comerciais que afectam o sector do algodão" revela até que ponto ele sofre da concorrência desleal da produção ocidental subvencionada.
Estes países perdem mais de 250 milhões de dólares por ano devido às únicas subvenções concedidas aos camponeses americanos que receberam um total de 2,1 biliões de dólares em 2001.
Ao todo, as subvenções concedidas nesse ano à indústria algodoeira ocidental elevaram-se em quatro milhões de dólares.
Os principais produtores fora da África ocidental e que dispõem programas de apoio à sua indústria algodoeira são o Brazil, China, Egipto, Grécia, México, Espanha, Turquia e Estados Unidos.
As subvenções aos produtores ocidentais de algodão prejudicam consideravelmente a indústria algodoeira africana.
Por exemplo, 22 por cento das receitas nacionais do Benim são geradas pelo algodão, ao passo que no Burkina Faso, esta cultura constitui 60 por cento das suas exportações, empregando directamente dois milhões de pessoas.
Segundo o ICAC, os países mais afectados da região são os Camarões, República Centro-Africana, Tchade, Côte d'Ivoire, Gana, Guiné, Mali, Nigéria, Senegal e Togo.
"Nos países da zona CFA da África ocidental e central, a queda recente do preço mundial do algodão surgiu no mesmo momento em que se reformavam os sectores algodoeiros para os tornarem mais competitivos e menos dependentes do Estado.
Estas reformas poderiam ser comprometidas", avisou o ICAC no seu estudo.
O estudo sugere que a África ocidental e central deveriam, em princípio, figurar entre as zonas mais florescentes em matéria de produção de algodão porque podem vangloriar-se de possuir "um algodão de boa qualidade, receitas elevadas e taxas de desbagamento elevadas".
Ao salientar que "as condições ecológicas locais, a mão-de-obra barata e uma boa organização do sector favorecem a competitividade da África ocidental", o ICAC sublinha que a região "não pode competir com o nível das subvenções nas outras regiões".
Insistindo na necessidade de se buscar recursos financeiros e oportunidades comerciais mais importantes para os países em via de desenvolvimento, o secretário-geral da ONU, numa carta dirigida ao G-8 nesta semana, declarou esperar que os dirigentes reunidos em Evian fossem discutir "não para saberem se era preciso debruçar-se sobre estes desafios, mas para saberem como assumí-los".
Da perspectiva da única produção algodoeira, é difícil que não se veja a hipocrisia de certas declarações e compromissos assumidos pelos países do G-8 nestes últimos anos.
Ao preconizar reformas nos países produtores de algodão do mundo em via de desenvolvimento, fazem reviravolta e subvencionam os seus próprios produtores.
Se estes produtores subvencionados têm no seu activo cerca de 53 por cento da produção algodoeira mundial, como os camponeses e as economias da África ocidental podem ser competitivos ? Como as suas economias podem se desenvolver ? Como podem lutar contra a pobreza e as doenças ? Eis as questões que deveriam representar um quebra-cabeça de difícil solução não só para os presidentes Thabo Mbeki da África do Sul, Abdoulaye do Senegal, Olusengun Obasanjo da Nigéria e Abdelaziz Bouteflika da Argélia, que foram convidados à próxima reunião de Evian, mas também para os que vão participar da próxima cimeira da União Africana prevista para Julho próximo em Maputo (Moçambique).
Visto que as tentativas individuais de certos países de se oporem a estas infames subvenções foram reprimidas por serem qualificadas de "actos hostis" contra os interesses americanos, não seria mais apropriado para a União Africana submeter este problema a nível da Organização Mundial do Comércio ? Que os nossos dirigentes sejam ou não convidados a Evian pelo G-8 para apresentarem a agenda da NEPAD ou que sejam mandatados pela UA com a mensagem clara, o problema das injustiças sofridas pelos camponeses oeste-africanos como consequência das subvenções concedidas aos seus homólogos dos países ocidentais, merece de ser levantado com toda energia necessária.
Quando o presidente do conselho de administração do Banco Oeste-Africano de Desenvolvimento, Dr Ayayi Boni, sugere, com razão, que os prejuízos causados aos camponeses oeste-africanos necessitam ao mesmo tempo de soluções políticas e jurídicas, é a UA que ele lança este apelo à acção.
Mas o caso do algodão é apenas uma das injustiças de que sofre a África.
Outro sapo vivo que a África deve engolir é a sua dívida.
O seu montante nunca foi claramente definido nem as modalidades do seu reembolso livremente negociadas.
A isto pode se acrescentar o tratamento especial reservado aos chamados trabalhadores imigrados africanos no Ocidente.
A ironia é que a doutrina ocidental da globalização prega a livre circulação da maioria dos factores de produção, excepto a mão-de-obra quando esta provém de outras regiões do mundo.
Os dirigentes convidados à conferência do G-8 não devem esperar que os seus hóspedes levantem estes problemas dolorosos porque não dizem respeito ao mundo industrializado como tal.