Chissano nega estatuto de "modelo"

Sirtes- Líbia (PANA) -- Retirar-se da Presidência em África torna-se um fenómeno crescente e os que tomam esta decisão são qualificados de "modelos" e ganham um estatuto que lhes confere uma certa veneração nos anais da história política africana.
Mas, o antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano, que deixou o poder no ano passado, vê a sua situação numa perspectiva diferente, declarando que os dirigentes devem meditar sobre as implicações da sua partida ou da sua manutenção no poder.
Ele retirou-se da Magistratura Suprema do Estado moçambicano, ao passo que a Constituição do seu país lhe permitia candidatar-se a mais um mandato.
"O que fiz não poderia recomendar a outros chefes de Estado que têm o direito de terminar os seus mandatos segundo a Constituição dos seus países", disse terça-feira Chissano em entrevista concedida à PANA à margem da quinta cimeira ordinária da União Africana realizada de 4 a 5 de Julho em Sirtes (Líbia).
"Portanto, não quero ser apresentado como modelo porque seria perigoso crer que todos os países são iguais.
Há problemas em diversos países e as democracias nascem de diferentes maneiras", disse.
Para o antigo Presidente moçambicano, "é preciso perguntar o que é bom para um país, o que é bom para manter a paz e consolidar a unidade e agir consequentemente e não se contentar a copiar o que Chissano fez".
Chissano disse não sentir muita diferença por já não gozar do prestígio de que beneficiam os chefes de Estado durante as suas cimeiras, sublinhando : "Continuo a ter relações com os meus antigos colegas chefes de Estado e com os novos, assim como os colegas do meu antigo ministro dos Negócios Estrangeiros".
O ex-Presidente moçambicano assiste a quinta cimeira da UA na qualidade de enviado especial do secretário-geral da ONU para a cimeira mundial de Setembro em Nova Iorque, disse Chissano à PANA.
"Viajo muito desde que deixei o poder.
A minha missão consiste em visitar os países e os chefes de Estado de África e ajudar no período de transição na Guiné-Bissau", sublinhou.
"Penso que nós (dirigentes africanos) não devemos temer não ser chefe de Estado ou de governo.
A vida continua e há muita coisa por fazer", aconselhou Chissano aos Presidentes cessantes.
A saída do poder não deixou muito tempo para Chissano se consagrar à sua vida privada, disse, acrescentando que "quando me retirei fui imediatamente convidado pela comunidade internacional a dar a minha ajuda, pelo que não tive tempo de planificar um trabalho diário enquanto Presidente aposentado, o que faz com que tenha menos tempo do que quando estava no poder".
Relativamente aos seus futuros projectos, Chissano revelou que deseja trabalhar com a sua fundação, que se concentra num projecto para as áreas rurais em Moçambique, e começar o rascunho do "que poderá ser escrito como minhas memórias" posteriormente.
Comentando os resultados duma das suas recentes missões internacionais na Guiné-Bissau, Chissano pediu à comunidade internacional para ajudar material e financeiramente este país da África Ocidental que prepara o seu processo de reconstrução, avisando "que se esta ajuda tardar poderão surgir novos problemas".

05 Julho 2005 20:40:00




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